Um dos objetivos principais do projeto Ateliê Compartilhado foi partilhar a pesquisa nas suas diferentes etapas – uma maneira de dialogar, abrir e trocar conhecimentos durante os percursos de criação.
A idéia de um compartilhamento de processos surgiu da prática solitária que envolve a criação de um espetáculo. Geralmente, nos moldes de produção teatral vigentes, o espetáculo só chega ao espectador quando se encontra “em pé”. Insatisfeitos com essa possibilidade, resolvemos compartilhar as criações entre os integrantes dos grupos ainda na fase de rascunho de cada experimento. Posteriormente, por meio da Mostra de Fragmentos de Cenas, apresentávamos essas investigações ao público. Porém, não nos interessava mostrar fragmentos polidos ou acabados; queríamos colher a apreciação do espectador em relação a um produto cênico em processo.
Essa maneira peculiar de condução das criações, esse compartilhamento entre os grupos e o público, ainda não era suficiente. Precisávamos nos apoiar em pressupostos teóricos e poéticos que pudessem abarcar parte das intenções de cada coletivo criador.
Elegemos, para tanto, a dramaturgia que se processa por meio da cena como norteadora de nossas investigações, a partir da re-escritura de um texto apenas esboçado, priorizando a ampliação de discursos realizada pela interferência cênica do coletivo criador.
Primeiramente estudamos o texto por meio de uma visão ética e estética do intérprete. Para tanto, trabalhamos a partir de imagens que traduzissem o conteúdo de cada trecho do material dramático. Mais do que caminhar da metonímia para a metáfora por meio da imagem/forma, procuramos investigar um discurso preciso e poético.
Cada ator elaborava sua versão e, com a ajuda dos outros, o propositor da cena experimentava as diferentes possibilidades, ou em processo inverso, o coletivo optava por determinada leitura da cena que era experimentada por todos os atores.
O passo seguinte foi inserir novamente a palavra. E junto com ela, um novo desafio, pois muitas vezes a imagem/forma era suficiente para comunicar o discurso desejado. As possibilidades eram diversas e, nesse período, algumas cenas chegaram a ter oito versões diferentes.
Tínhamos, então, possibilidades de estruturas e de conteúdos que, dependendo da maneira como eram materializadas na cena, poderiam apresentar determinado discurso ou leitura. Em decorrência dessa pesquisa, algumas resoluções formais e estéticas criadas para determinadas situações foram experimentadas e aproveitadas em outros trechos da peça.
Depois de todas as cenas levantadas, iniciamos os ensaios corridos e começou a se estabelecer uma seqüência, uma vez que as situações foram estudadas e criadas individualmente, sem obedecer a nenhum tipo de ordenação específica.
Os experimentos eram apreciados pelo próprio grupo e a próxima ação foi a de agregar o olhar de outras pessoas, pois trabalhamos com a perspectiva de ter o espectador como parceiro no jogo da construção da narrativa, ou seja, para que cada um, de acordo com seu repertório, suas experiências, tivesse a possibilidade de elaborar seu próprio discurso e construir um sentido a partir da sua visão sobre o assunto. Assim, tanto nas Mostras de Fragmentos de Cenas quanto nos nossos ensaios, o espectador contribuiu significativamente, vendo não apenas cenas ou trechos prontos do espetáculo, mas embriões de idéias.
Muitos dos apontamentos ajudaram a definir o trabalho e a criar o caminho pelo qual queríamos seguir. Diálogos que ultrapassaram a formalidade, pois nos revelaram um caráter pedagógico tanto no que tange ao fazer artístico, quanto na relação do público com a obra.
A apreciação foi também um dos balizadores do trabalho na Mostra de Resultados de Pesquisa, na qual a peça era apresentada integralmente. Nesse momento, algumas apreensões do espectador nos impulsionaram a alterar determinados aspectos da montagem.
Por termos priorizado uma leitura plural de cada cena, muitas questões eram levantadas e, bastante revelador foi o fato de que grande parte dos questionamentos era esclarecida pelo próprio público, num processo de reflexão conjunta que englobava a visão dos artistas sobre a temática, a linguagem estética, entre outros aspectos.
Paralelamente às experimentações e criações, estudamos expedientes do teatro pós-dramático a fim de ampliarmos possibilidades de percepção do espectador, essencialmente, a atitude do artista, o seu posicionamento em relação ao que é exposto, o seu discurso, o que ele almeja comunicar com suas ações e palavras em cena. Muito mais do que uma apropriação do texto, de idéias ou de fatores externos, procuramos encontrar lacunas que pudessem fornecer espaços para que o artista revele o seu posicionamento ético e estético diante das situações mostradas pela narrativa.
Desse material pesquisado, fornecido pelos tantos colaboradores, procuramos ampliar o discurso poético e ideológico do produto cênico, pois algumas considerações apontaram direções, sugeriram encaminhamentos... Mas estão longe de uma resposta definitiva... Situação que nos instiga à pesquisa.



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